O doce, para além da memória

Arroz doce feito com leite de cabra.
Hoje é um mimo raro, mas o arroz doce de leite de cabra era, há décadas, um doce com destaque nas principais festas

Desde miúda que ouço rumores sobre essa sobremesa. As memórias são sempre adocicadas pelo tempo, no entanto, as descrições dos casamentos em que era servido o arroz doce feito com leite de cabra ou ovelha, sempre me puxaram pela imaginação… E pela vontade de provar a iguaria.

Compreendo também o enredo em torno das recordações que me foram sendo passadas. Há 50 ou 60 anos, numa região pobre como Manteigas, na Serra da Estrela, as oportunidades para comer doces não eram muitas. Quando surgiam, nos casamentos ou batizados, por exemplo, as crianças exultavam de alegria. Foram essas crianças que, em adultos, me falaram daquele momento por que tanto esperavam: em que podiam provar a sobremesa acabada de fazer ou, quando, às escondidas, iam roubando o doce ainda dentro da panela.

Bilhas para transporte de leite de cabra.
Bilhas para transporte de leite de cabra.

A última história foi-me contada pela própria noiva. Lembrou-se do seu casamento, aos 19 anos. Passados 54 anos ainda descrevia com cuidado o creme que ficava no bordo do “caldeiro”. Havia outras sobremesas servidas naquelas ocasiões, claro, como os bolos de leite e os bolos de crista. Mas, por vezes, o arroz doce chegava a ser oferecido a familiares e amigos no dia da cerimónia. Talvez tivesse uma relevância simbólica, tal como continua a ter o ato de atirar arroz aos noivos? Na minha cabeça tornou-se um pouco mais urgente explorar esse assunto.

O arroz da Tia Cruz

Hoje, esta versão da receita é raramente empregue. Afinal, é difícil o acesso a este leite. A produção dos rebanhos é direcionada, quase em exclusivo, para o fabrico de queijo, requeijão, queijo fresco… É aí que os pastores da Serra da Estrela conseguem tirar maior rendimento do produto do seu trabalho.

A oportunidade surgiu, finalmente, na semana passada. Depois da visita, com os hóspedes da Casa Cerro da Correia, ao rebanho de cabras trouxemos algum leite que a Tia Cruz utilizou para fazer o famoso arroz doce. Fiquei surpreendida, não tanto com a diferença de sabor (que não é muito intenso), mas sim com a textura. É mais cremoso e delicado, chega a ser sedoso.

Valeu a pena esperar. Como é um mimo raro, provar um arroz doce feito com leite de cabra, continuará a ser algo especial.

 

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