Um céu por dia #1

Quando chegávamos ao Cerro da Correia espreitávamos o vale de cabeça virada para baixo e rabo para o ar. Durante as férias esta estranha e hilariante tradição inventada pela minha mãe e pela Tia B. (sempre juntas, sempre às gargalhadas) era cumprida com esmero pelos primos, entre muita risota e alguns desequilíbrios.

Quem olhasse de fora podia ver apenas um bando de tolos. Éramos. Acreditem. Mas havia e há algo mais naquele “ver de rabo para o ar”. Para quê contemplar o Vale Glaciar do Zêzere sempre da mesma maneira, com a cabeça entre as orelhas e os olhos na vertical? Toca a revirar o mundo e encará-lo de outra forma.

Quando vim viver para Manteigas e fui rever a casa construída pelo meu avô em 1953, renovei a tradição familiar, pela primeira vez em muitos anos. Fi-lo às escondidas. E descobri o céu, ali, escondido, mesmo por cima de mim. Uma imensidão a transformar-se, a cada instante, ao longo do Vale Glaciar do Zêzere.

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